Como lidar com riscos na gestão de energia e utilidades

Publicado por Bruno Santos Pimentel em qui, 10/05/2018 - 13:38
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Riscos são inerentes a qualquer situação de interesse prático. Temos a tendência de vê-los como algo negativo, em particular porque carregam efeitos inesperados – e nós, que ainda carregamos nosso instinto evolutivo de sobrevivência, não gostamos muito de surpresas, em especial em contextos corporativos. O incerto incomoda, pois limita a previsibilidade com a qual nos acostumamos nos momentos de calmaria.

De fato, a incerteza está sempre presente: nos fenômenos da natureza e nos instrumentos que usamos para tentar compreendê-la; nas informações que consumimos sobre o nosso meio e nos efeitos das decisões que tomamos; no comportamento dos mercados e nos modelos que desenvolvemos para analisá-los.

 

Risco x Incerteza

Risco e incerteza são usados quase como sinônimos, mas representam conceitos um tanto distintos:

Incerteza representa qualquer situação em que eventos futuros são aparentemente desconhecidos para o tomador de decisão - Situações de incerteza não são quantificáveis, tampouco controláveis.

Riscos são quantificáveis e, por isso, podem ser estimados e controlados – os efeitos de nossas ações, quando em situações de risco, poderiam ser mapeados de acordo com funções de probabilidade. De fato, os riscos representariam a probabilidade de se destruir ou de se criar valor para o tomador de decisão.

Harry Markowitz, economista estadunidense, aplicou esses conceitos de forma clara e pragmática em seu trabalho sobre otimização de portfólios, que lhe rendeu o Nobel de economia em 1990. Na sua obra, o risco de ativos financeiros era quantificado em função dos desvios de seus retornos em relação a uma média histórica – sua variância, em termos estatísticos.

A relação entre risco e retorno, já conhecida intuitivamente, ficava assim formalmente definida e abria espaço para modelos analíticos cada vez mais sofisticados. Riscos poderiam ser analisados, quantificados e controlados. Investimentos mais “arriscados” e com maiores retornos esperados poderiam ser balanceados com outras iniciativas, menos incertas, mas que conferissem limites – ou reduzissem a exposição – às perdas potenciais, facilitando a valoração de carteiras, projetos e organizações.

 

Gerenciamento de Riscos na Gestão de Energia e utilidades

A evolução dos modelos de avaliação de riscos, o desenvolvimento de novas e mais robustas medidas quantitativas (i.e. Value-at-Risk) e a incorporação de técnicas analíticas (i.e. simulação de Monte Carlo) em ferramentas computacionais amigáveis contribuíram para popularizar a disciplina Gerenciamento de Riscos e para tornar essencial a sua aplicação em processos decisórios de alta relevância.

Na gestão de energia e utilidades, o gerenciamento de riscos encontra terreno fértil e com amplas possibilidades de criação (ou de redução das chances de perda) de valor. No contexto da Indústria 4.0, unidades produtivas são plenamente instrumentalizadas, gerando grandes volumes de dados que podem informar, além dos níveis de produção e consumo de insumos energéticos, a eficiência e a resiliência de processos, a condição dos ativos produtivos e as oportunidades de redução de custos e desperdícios.

No entanto, qualquer instrumento físico é naturalmente incerto e, consequentemente, também são incertas as informações que produz. Conhecer esses níveis de incerteza e controlá-los – por meio de calibração adequada, da aplicação de heurísticas de qualidade de dados, da redundância de medição em redes e da reconciliação de informações de balanços de energia e massa – aumentam as chances de se obter bons resultados de iniciativas de eficiência operacional e energética.

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De maneira semelhante, nas funções de planejamento de energia e utilidades, o gerenciamento de riscos oferece oportunidades interessantes, em especial quando se observam incertezas nas informações envolvidas e nos efeitos de médio e longo prazos.

Por exemplo, os níveis futuros de demanda de energia de uma indústria dependem de diversos fatores, em especial os níveis de produção necessários para atender a uma expectativa de demanda de mercado e os níveis de consumo energético dos ativos envolvidos na produção daqueles bens.

Tanto o comportamento do mercado, quanto o comportamento energético do parque produtivo são incertos, mas podem ser modelados como variáveis aleatórias que representam os níveis de risco e valores esperados.

Por sua vez, as tarifas futuras de energia elétrica podem variar em função de diversas outras variáveis aleatórias: o regime de chuvas, os níveis dos reservatórios, a expectativa de crescimento da atividade econômica e do consumo de energia, as diferentes perspectivas de evolução do parque de geração e do sistema de transmissão, além do próprio cenário político.

Tais elementos também influenciam diretamente os riscos associados aos contratos no mercado livre de energia. Tais riscos podem ser quantificados financeiramente em função dos níveis de demanda e das respectivas tarifas contratadas por uma organização frente aos valores da energia praticados no mercado spot. A negociação de parâmetros como preço, flexibilidade, duração e sazonalidade influenciam diretamente as condições de risco e de atratividade dos contratos.

De forma semelhante ao estabelecimento de contratos de energia, os investimentos em capacidade produtiva e em capacidade de geração própria de energia também têm seu valor dado por elementos de risco associados aos níveis de demanda e preços futuros. E ainda, a utilização desses mesmos ativos em níveis economicamente eficientes depende das características dos programas de produção, da disponibilidade de insumos energéticos, das tarifas de curto prazo, dentre vários outros elementos não menos incertos.

Em todos os casos, os diferentes resultados decorrentes da realização das variáveis de risco podem ser modelados como cenários, representando estados conhecidos, com probabilidades e impactos estimados, e que possibilitariam a determinação das estratégias mais adequadas.

A análise e a determinação das políticas ideais para cada cenário podem ser feitas tanto por técnicas qualitativas, como na abordagem prospectiva popularizada pela Shell, quanto por técnicas quantitativas, ambas oferecendo oportunidades para a compreensão, priorização e ações de mitigação dos riscos identificados.

Por exemplo, se uma organização tem por estratégia diversificar sua matriz energética no longo prazo, pode ser interessante avaliar diferentes cenários futuros para a disponibilidade e para os preços de diferentes fontes de energia, considerando incertezas de natureza tecnológica, ambiental, de mercado, da estratégia competitiva e das perspectivas político-econômicas. Para cada cenário, diferentes opções de investimento em geração própria, em contratação no mercado livre, em iniciativas de eficientização poderiam ser priorizadas – e revisitadas sempre que os gatilhos que caracterizam cada cenário se apresentarem.

Como vimos, a incerteza é uma característica inerente a qualquer processo de decisão de cunho prático, e é fundamental que todo tomador de decisão tenha em mãos o conhecimento e as ferramentas necessárias para lidar, de forma construtiva, com os riscos inerentes aos processos de gerenciamento de energia e utilidades.

A plataforma de gerenciamento de energia e utilidades da Viridis provê funcionalidades para apoiar diretamente o gerenciamento de riscos associados às funções de gestão de energia e utilidades em organizações industriais e administrativas, cobrindo monitoramento, planejamento, contratação, custeio, medição e verificação, simulação e otimização do consumo e da geração de energia. As funções de monitoramento possibilitam capturar e analisar indicadores de desempenho energético de ativos em qualquer nível organizacional, levando em consideração as incertezas associadas às medições, o balanceamento de redes de medição e a reconciliação de dados de balanços de massa e energia. A integração dos dados de monitoramento às funções de planejamento viabiliza o desenvolvimento de modelos robustos de predição de consumo, que possibilitam a análise de diferentes cenários de consumo futuro e, consequentemente, a exposição da organização aos riscos – operacionais e financeiros – envolvidos nos contratos de energia de curto e de longo prazo. A análise de cenários também favorece a identificação e avaliação quantitativa dos riscos relacionados aos resultados de projetos de eficiência energética, contribuindo para a adequada valoração desses investimentos. Clique aqui e conheça mais sobre nossas soluções.  


Gerente de Produto, Viridis

Gerente de Produto da Viridis, com mais de 20 anos de liderança em programas de inovação e tecnologia em organizações industriais de grande porte. Doutor e mestre em Ciência da Computação pela UFMG, Bacharel em Engenharia Mecânica, Innovation & Sustainability Fellow at Sloan School of Management, MIT. Larga experiência na gestão de projetos e equipes de inovação aberta com indústria, academia e startups, aplicando tecnologias digitais e analytics a desafios em produtividade, estratégia e desenvolvimento sustentável.

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