Geração Distribuída: Nova regulação, desafios e a intensificação de modelos de negócio rumo às tendências Smart

Publicado por Aline Gonçalves em ter, 02/07/2019 - 17:09
artigo geração distribuida

Neste artigo você vai entender como a revolução tecnológica que estamos vivendo vai influenciar diretamente o conceito de geração distribuída de energia elétrica como conhecemos hoje, e quais são os desafios a serem enfrentados na mudança de paradigma do setor elétrico brasileiro.

 

O atual modelo de negócio do sistema elétrico brasileiro está apto a integrar bacias hidrográficas fisicamente distantes entre si e a gerar energia elétrica de forma centralizada, dependendo diretamente de uma extensa e complexa rede de linhas de transmissão e distribuição. O grande fator responsável pela proporcionalidade do sistema é a demanda de energia dos consumidores finais, ou seja, o sistema responde com um aumento na geração de energia quando a demanda das unidades consumidoras também aumenta, se limitando, porém, à capacidade do sistema. Quando isto acontece, ou seja, quando o consumo de energia excede os limites da capacidade existente, é necessário aumentar a capacidade através da construção de novas unidades de geração e como consequência, ampliar também a estrutura de transmissão e distribuição de energia elétrica.

É de conhecimento geral que a palavra sinônimo deste século é a Conectividade. Ou seja, os avanços tecnológicos rumam a interfaces onde o usuário pode se conectar com o mundo em que vive, e o mundo pode se conectar de volta. Neste sentido, podemos visualizar nos bastidores a inserção de inúmeros sensores, sistemas de transferência de dados sem fio, equipamentos cada vez mais inteligentes. E se houver ainda um segundo nível de bastidores, podemos enxergar o aumento das indústrias que fomentam estes itens de base, e, olhando por este aspecto, percebemos que o consumo de energia elétrica tende a aumentar muito nos próximos anos. E para atender a tamanha inovação e considerável aumento no consumo de energia, as tecnologias de geração e distribuição de energia também precisam passar por uma transformação.

Geração Centralizada x Geração Distribuída

No sentido de mudar o paradigma do setor elétrico, a geração distribuída, ou GD, traz o conceito de aumento na capacidade do sistema, sem ter que, necessariamente, ampliar os investimentos nas linhas de base, ou na construção de unidades de geração de grande porte. Uma das inúmeras vantagens é proporcionar o desenvolvimento local através da instalação de unidades geradoras próximas ao consumidor, possibilitando também o fornecimento de energia em áreas remotas. A grande ideia é usar novas e sustentáveis formas de geração como opção de uso mais eficiente dos recursos naturais, econômico-financeiros e que possam estar mais próximas dos centros consumidores, além de considerar a redução das emissões de gases de efeito estufa a partir do desenvolvimento de matrizes energéticas baseadas em fontes renováveis.

esquemas geração centralizada-distribuida

 

Segundo João Lucas Silva, Engenheiro Eletricista e Membro do IEEE, através de matéria publicada na Revista de Engenharia e Tecnologia em 2018, a GD ainda possui um longo caminho para superação dos desafios existentes. Podemos citar a problemática em garantir a proteção do sistema, pois com o aumento de geradores sendo incluídos na rede, é possível que a tensão sofra um aumento inadequado, assim como um indesejado aumento do conteúdo harmônico. E ainda existem questões sobre a possível redução do faturamento das empresas que fazem parte da geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, bem como a redução da flexibilidade do sistema, uma vez que o número de regiões controladas pelos operadores de rede será cada vez mais diminuído.

Regulamentação da Geração Distribuída

Com a finalidade de mitigar os riscos, e se antecipar aos desafios, em 2012 foi criada a Resolução Normativa ANEEL nº 482/2012. Caracterizada como um marco na regulação desta nova tecnologia no Brasil, a resolução estabeleceu as primeiras condições para o acesso a micro e mini geração distribuída, assim como sistemas de compensação de créditos, tarifas e incentivos. A partir dela, foi permitido o uso de qualquer fonte renovável, além da cogeração qualificada, e foram caracterizadas a microgeração distribuída, com potência instalada de até 75 kW, e a mini geração distribuída, com potência acima de 75 kW ou igual a 5MW, ambas conectadas à rede de distribuição por meio de instalações de unidades consumidoras.

Em 2015, foi lançado o Programa de Desenvolvimento da Geração Distribuída de Energia Elétrica (ProGD), com o objetivo de estimular o crescimento da GD com fontes renováveis em residências, instalações industriais, comerciais, escolas técnicas, universidades federais, hospitais e edifícios públicos. Para atingir estes objetivos, foram propostas ações como a criação de linhas de crédito e financiamento de projetos e sistemas de GD, investimentos nas indústrias de equipamentos base e fomentos voltados à capacitação de profissionais.

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SMART GD

Aliada à revolução tecnológica da Conectividade, a GD vem acompanhada com o conceito S.M.A.R.T. (Self-Monitoring, Analysis and Reporting Technology, ou em português: Tecnologia de Auto-Monitoramento, Análise e Relatório). Isto quer dizer que, uma SMART GD é uma nova forma de combinar tecnologias, e compreende um conjunto de infraestrutura e técnicas para a gestão do sistema elétrico, através de sensores, equipamentos, softwares de monitoramento e gestão, a fim de integrar a rede para gerar e fornecer energia de maneira mais confiável, segura e eficiente.

Segundo Claudio Girardi, em artigo publicado no XXIV Simpósio Jurídico de São Paulo, em 2018, a tendência SMART será responsável por conduzir investimentos em novos modelos de negócios para a geração distribuída nos próximos anos. Exemplos de novos modelos são a modernização da distribuição através de smart grids, os medidores de energia inteligentes (smart meters) baseados em IoT (Internet of Things), a utilização de Big Data e armazenamento de dados de consumo em nuvem, técnicas de Inteligência Artificial (AI) para o aprendizado da máquina com aplicação de padrões de consumo, identificação de falhas e integração pela automação.

Até agora, os primeiros passos foram trilhados para que a geração distribuída ocupe um espaço relevante no Brasil. Porém, assim como são claros os seus benefícios, seus desafios ainda são emergentes e demandam além de conhecimento para soluções assertivas, políticas públicas que viabilizem ainda mais o avanço das novas tecnologias no Setor Elétrico.

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Analista de Gestão de Energia, Viridis

Analista de Gestão de Energia na Viridis, atuando na Gestão de Energia e Planejamento Estratégico da Bayer. Formada em Engenharia Elétrica com ênfase em Controle e Automação pela Universidade Federal de Uberlândia. Participou de projetos P&D para a medição inteligente de energia da CELG e CEMIG, conduziu projetos de inovação, inteligência artificial, robótica e gamification para ambientes corporativos.

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