PLD Horário: Oportunidades e desafios para grandes consumidores de energia

Publicado por Bruno Santos Pimentel em qua, 29/05/2019 - 12:36
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O PLD Horário vem aí. E você precisa avaliar o impacto sobre a gestão de energia da sua empresa. Este é o primeiro de uma série de artigos sobre o tema PLD horário e seu impacto sobre a gestão de energia para os agentes participantes do Mercado Livre.

 

No Mercado Livre de Energia, o consumidor pode adquirir energia elétrica diretamente de geradores ou de comercializadores, estabelecendo contratos futuros com condições que podem ser livremente negociadas entre as partes.

Essas condições incluem, além dos prazos de vigência, a sazonalização (distribuição das quantidades anuais de energia contratada em valores mensais), a modulação (distribuição da quantidade mensal em valores horários) e diversos outros parâmetros que, quando bem dimensionados, podem conferir importante vantagem competitiva para os grandes consumidores.

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No Mercado de Curto Prazo, as diferenças, positivas ou negativas, entre as quantidades de energia geradas, contratadas e consumidas por um determinado agente devem ser periodicamente contabilizadas e liquidadas utilizando um preço de referência.

Este preço é o PLD, ou Preço de Liquidação de Diferenças.

A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), responsável pela contabilização e liquidação dos contratos de energia no Mercado de Curto Prazo, calcula semanalmente o PLD a partir de modelos matemáticos que buscam otimizar “o equilíbrio entre o benefício presente do uso da água e o benefício futuro de seu armazenamento, medido em termos da economia esperada dos combustíveis das usinas termelétricas”.

Assim, o PLD é determinado ex-ante (a partir de previsões de disponibilidade e carga) para três patamares de carga (pesada, média e leve), em cada submercado do sistema elétrico brasileiro (Norte, Nordeste, Sudeste/Centro-Oeste e Sul).

A CCEE é responsável por apurar mensalmente toda a consolidação de resultados financeiros desse mercado, determinando os pagamentos e recebimentos devidos pelos agentes. A contabilização, por sua vez, determina como a diferença entre a energia medida e a energia contratada por um agente, valorada pelo PLD, deve ser calculada para liquidação financeira.

Para um agente consumidor no Mercado Livre, o comportamento futuro do PLD possibilita tomar decisões mais acertadas no curto prazo – por exemplo, quanto à melhor execução dos contratos vigentes – e também no longo prazo – por exemplo, quanto à melhor forma de adquirir novos contratos que contemplem preços, prazos e parâmetros mais vantajosos que reduzam a exposição ao risco financeiro inerente a esse mercado.

PLD Horário

A adoção do PLD Horário – ou mais formalmente, o cálculo em base horária do preço spot da energia elétrica – é uma iniciativa capitaneada pela CCEE que busca conferir maior dinamismo e flexibilidade à gestão de energia, oferecendo a consumidores e geradores novas oportunidades de captura de valor – e novos desafios.

O modelo vigente de preços e despacho hidrotérmico, colocado em operação nos anos 2000, se baseia na premissa de que 90% da matriz energética brasileira vem de fontes hidráulicas, com menor variação e maior previsibilidade sobre o comportamento dos preços de energia.

Porém, mais recentemente, o aumento da participação de fontes renováveis intermitentes – solar e eólica, em especial – vem tornando mais desafiadora a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) e, consequentemente, impactando diretamente a precificação da energia.

Com uma maior resolução dos preços, maior a necessidade de um monitoramento mais frequente do consumo de energia, de maior robustez no planejamento e na gestão das operações, e de maior maturidade em todo o processo de tomada de decisão na gestão de energia de grandes consumidores.

Ademais, em um cenário de preços em base horária, novos produtos, serviços e modelos como o de resposta à demanda e geração distribuída, são viabilizados ou potencializados. Com isso, é natural a expectativa quanto ao aumento da competitividade do mercado, tanto pela maior participação dos geradores – em especial, de fontes renováveis – quanto pela maior fidelidade dos preços horários ao comportamento real da operação do SIN.

Mas para que tudo isso seja viável, os modelos matemáticos utilizados pela CCEE devem, necessariamente, ser refinados.

Preço Sombra

A expectativa da CCEE é que o PLD poderá ser calculado em base horária (com assertividade) a partir de janeiro de 2020. Para tanto, desde dezembro de 2018 a CCEE vem fazendo uma contabilização “sombra”, com cálculo e publicação do PLD do dia seguinte e em base horária, paralelamente ao cálculo e contabilização semanais e oficiais para o Mercado de Curto Prazo.

Como exemplo, a figura abaixo mostra o preço sombra para a semana de 28 de abril de 2019, deixando evidente como a variação horária pode se materializar – e como consumidores e geradores poderiam responder.

 

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No entanto, explorar esse novo modelo exigirá dos geradores e dos consumidores livres uma capacidade de planejamento e execução um pouco mais sofisticada do que vem sendo praticado até hoje.

Torna-se essencial a adoção de sistemas digitais de gerenciamento de energia que sejam capazes de prever consumo, geração e demanda sob diferentes condições operacionais, avaliando seu desempenho quanto a metas de produção, de custos operacionais e, em especial, de custos de energia, monitorando os valores reais desses indicadores, e facilitando a análise das causas de desvios – além de promover o aprendizado continuado da equipe gestora e dos modelos de predição utilizados, idealmente.

O que esperar do PLD Horário?

Ao que tudo indica, o PLD horário deve ser adotado em janeiro de 2020. No entanto, ainda há diversas questões a serem resolvidas para que os agentes possam repensar seu modelo de gestão para a base horária de preços de energia.

De modo geral, ainda há dúvidas quanto ao comportamento do preço sombra, questionamentos quanto à capacidade dos modelos de precificação de capturar adequadamente as características de fontes renováveis como a eólica – cuja representatividade no país vem aumentando significativamente – e mesmo incertezas quanto às regras de comercialização de energia (ainda) em revisão pela CCEE.

Os próximos meses com certeza serão bastante intensos em discussões, estudos e, potencialmente, readaptação para todos os agentes atuantes no Mercado Livre.

Nos próximos artigos desta série vamos explorar em mais detalhe cada um dos diversos aspectos envolvidos na adoção PLD horário.

Gerente de Produto, Viridis

Gerente de Produto da Viridis, com mais de 20 anos de liderança em programas de inovação e tecnologia em organizações industriais de grande porte. Doutor e mestre em Ciência da Computação pela UFMG, Bacharel em Engenharia Mecânica, Innovation & Sustainability Fellow at Sloan School of Management, MIT. Larga experiência na gestão de projetos e equipes de inovação aberta com indústria, academia e startups, aplicando tecnologias digitais e analytics a desafios em produtividade, estratégia e desenvolvimento sustentável.

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